apoteose apócrifa

fevereiro 11, 2008

sentou à cadeira.

as pernas, cansadas, repousaram em total regozijo.

certo gosto de metal à boca lhe causava uma espécie de náusea.

talvez seja a pólvora… – palpitou a língua, enquanto aguçava a apuração.

não teve tempo de descobrir.

o dedo, indiferente, puxou o gatilho assim que teve a oportunidade.

o cérebro, à medida que era desintegrado, vociferava contra a maldita parede, que a aguardava em desafiador desdém.

enquanto escorria, o sangue infligia desespero aos alvos ladrilhos, reservados em seu asséptico estado.

todos então se calaram, esperando ansiosamente o baque surdo vindouro do gélido corpo ao cair inerte.

mas esse não veio.

aliás, o pequeno cômodo fechou-se sobre si mesmo.

os ladrilhos se reorganizaram.

a cadeira sumiu.

logo Rafael acordou.

tinha uma arma à mão direita.

decidiu desencostar os lábios.

em Beslan

fevereiro 8, 2008

festa interrompida
balões ainda ao vento
intensa corrida
dos homens de preto

quem há de findar
a tranquilidade em Beslan?

filme funesto
silêncio absoluto
não aguentam ficar parados
por nem mais um minuto

como a água chegará
aos sequiosos de Beslan?

heróis inventados
capas invisíveis
resgate improvável
deuses pouco críveis

de que forma recobrar
a esperança em Beslan?

explosões acidentais
corpos liquefeitos
braços a acenar
sem tronco para sustento

onde irão ficar
os tristes órfãos de Beslan?

mas,
acaso é novidade
a crueldade sem tamanho
neste mundo de barbárie
paixão
sem nenhum ganho?

não,
de fato é ordinário
mas poupemos as crianças
livres estas de pecados
mas cheias
de puro encanto.

agora diga,
quando se repetirá
o infortúnio de Beslan?

para abrir os olhos

janeiro 21, 2008

Uma gritaria sem fim.

Sobre o que estarão falando esses condenados?

Deixem-me em paz, quero estar só.

Não sou igual vocês, nunca!

Vermes, viciados, alcoólatras!

Aquele bar imundo me incomodava.

Sentada ao colo de um velho barbudo – o que será, por amor a deus, aquilo na barba daquele homem?- está uma loira até que simpática.

Se não fosse pelas cicatrizes no rosto.

E a maquiagem exagerada.

Os seios murchos.

As pupilas dilatadas.

Enfim, é a melhor que avisto desde que cheguei.

Se eu tivesse algum trocado, poderia me divertir.

Mas não tenho nada.

A bebida me tira tudo.

Não, não bebo por lazer.

Pura necessidade.

Qualquer coisa que me faça abrir os olhos de manhã.

- Blue Label, por favor. Sim, acerto depois.

Fumava meu cigarro calmamente.

A brisa da noite esfriava meus pulmões.

Que sensação boa.

Tão boa que quase desisti.

Mas, não, a decisão já estava tomada.

Que espécie de covarde eu seria?

Prometera a mim mesmo que de hoje não passaria.

Olhei para baixo.

O prédio era mais alto do que eu pensava.

Inclinei-me o máximo que pude, sempre mantendo o pés firmes.

Há muito tinha costume de subir ao terraço, mas hoje tudo parecia especialmente sombrio.

A fim de ganhar tempo, sentei à borda da edificação, mexendo as pernas freneticamente.

Uma grande baforada.

A última.

Era agora.

Estupidamente, devido ao movimento das pernas, meu sapato direito acabou por se soltar.

Por reflexo, estiquei meus membros com o intento de capturá-lo.

Acabei deslizando, sem ter onde segurar.

Enquanto caía, sentia meus pulmões ficando mais e mais limpos.

Esta foi a noite em que eu parei de fumar.

Não da forma pretendida, é verdade.

Mas quando é que algum plano se realiza perfeitamente, mesmo?

insônia

janeiro 17, 2008

deitada ao meu lado, dizia que precisava conversar.

segurou minhas mãos, colocando a cabeça sobre meu peito nu.

perguntou como havíamos chegado àquele ponto.

recitou algumas frases curtas, não ouvi bem.

algo sobre a efemeridade da vida, impossibilidade da felicidade plena.

fechei meus olhos, imaginando-me só.

sua voz tornou-se lentamente inaudível, ao passo que minha mente vagava por pensamentos distantes.

o que fazia ali? nada fora planejado, assim como a maioria das coisas da vida.

quando voltei a mim, percebi suas lágrimas.

finos feixes escorrendo por seu rosto alvo e empoçando meu tórax.

tentando mostrar compaixão, beijei sua testa e disse que tudo ficaria bem.

olhei a cartela vazia de valium ao chão e tive certeza que não havia outra opção.

podíamos enfim dormir, quem dera para sempre.

as cinzas

janeiro 16, 2008

e a bomba então explodiu.

não se sabe o número de vítimas.

tudo se misturou numa funesta massa uniforme.

foi o preço a se pagar, alguém disse então.

agora, um novo mundo poderia ser construído, completava.

mas como?

qual a fênix, do fogo renasceremos?

não sei, o primeiro passo foi dado, acabo aqui a minha obra.

o fogo então se alastrou, atingindo toda aquela cidade.

espalhou-se pelas estradas, chegando a ermas províncias.

e então toda a civilização queimou, feliz por participar do plano de ressurreição.

acontece, porém, que ninguém renasceu.

as novas gerações, ah, essas não se interessavam por essa politicagem.

se bancavam os incendiários, era por lazer, tão somente.

novamente fez-se chamas.

e o fogo tarda a cessar…

na voreux

janeiro 15, 2008

o carvão concentrado no teu peito
não me impressiona nem um pouco
eu cá escarro desde pequeno
ao fundo deste velho poço

as meninas defloradas
aos doze ou até menos
não me causam comoção
já provei destes venenos

este veio é escaldante
mas há piores, asseguro
aproveita teus 10 soldos
ou choraminga, pequeno fulo

sem dramas, doravante
és jovem, há de aguentar
estou nesta há decênios
nada adiantou-me reclamar

todo fim tem um começo

janeiro 14, 2008

começo aqui, mas podia também estar terminando.

qual a diferença?

tudo nasce para acabar. o fogo tem que queimar para viver.

parou a chuva. mas minha náusea não pára nunca.

areia

janeiro 14, 2008

pensei um dia ter encontrado a vida.

tolice, ela é que me encontrou.

chegou sem maiores apresentações, e tudo começou a fazer sentido.

tentei segurá-la o máximo que pude, mas, qual areia, esvaiu-se por entre meus dedos magros.

ou talvez meus dedos é que tenham desmanchado sob aqueles ásperos grãos.

o que importa? a quem importa?

feliz é aquele que tem a quem se dirigir.

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