apoteose apócrifa
Fevereiro 11, 2008

sentou à cadeira.
as pernas, cansadas, repousaram em total regozijo.
certo gosto de metal à boca lhe causava uma espécie de náusea.
talvez seja a pólvora… – palpitou a língua, enquanto aguçava a apuração.
não teve tempo de descobrir.
o dedo, indiferente, puxou o gatilho assim que teve a oportunidade.
o cérebro, à medida que era desintegrado, vociferava contra a maldita parede, que a aguardava em desafiador desdém.
enquanto escorria, o sangue infligia desespero aos alvos ladrilhos, reservados em seu asséptico estado.
todos então se calaram, esperando ansiosamente o baque surdo vindouro do gélido corpo ao cair inerte.
mas esse não veio.
aliás, o pequeno cômodo fechou-se sobre si mesmo.
os ladrilhos se reorganizaram.
a cadeira sumiu.
logo Rafael acordou.
tinha uma arma à mão direita.
decidiu desencostar os lábios.